Ali, nas suas tentativas, percebeu o frio que o silêncio naquela casa fazia. Seu pai lhe mandava dormir cedo, para poder ficar sossegado no sofá, assistindo o jornal da noite que passava só coisas que os adultos deveriam se envergonhar de terem feito e que criança não devia se espelhar nisso. Trabalhava muito e quando voltava pra casa, só havia tempo de requentar alguma coisa que sua mãe deixara para o menino jantar, porque ele estava em fase de crescimento e não podia só comer enlatados e congelados de supermercado. Não tinha muito contato com o filho, o garoto era muito reservado e tímido, assim como ele. Sua esposa faleceu subitamente de motivo ainda desconhecido havia poucos anos e sua relação com o filho não mudou muito desde então.
Nas noites como aquela, o menino se lembrava de sua mãe e de como era quente o abraço que ela lhe dava antes dele sair para escola e o quanto era gostoso o cheiro do bolo de laranja colhida da casa da avó que ela fazia para ele tomar com o leite morno. O que ele gostava mesmo era quando ela vestia o pijama flanelado nele e o colocava deitado no seu colo para lhe contar histórias. Ele sempre se via como a personagem principal: o bravo pirata, o leal rei, o inteligente detetive... nessa noite ele se lembrou da ultima que a mãe lhe contou: história esta onde ele deveria buscar o maior tesouro que existe na Terra e que quando o descobrisse, seria o responsável em dividí-lo com todo mundo que precisasse. Mas mãe, que tesouro é esse? Você já o tem, tenho certeza que ele te acompanhará por toda a vida, mesmo quando eu não puder estar aqui com você. Basta você descobrir, disse ela.
E no outro dia ele teve que aprender a aquecer seu leite e a desembaraçar o cabelo. Não foi difícil resolver aquele enigma. Sorriu e a partir dali caminhou pros próximos dias da vida carregando aquele tesouro que sua mãe havia lhe deixado, seguindo a orientação: dividí-lo para multiplicá-lo.